ZONA DE RISCO

Cartaz para a divulgação do espetáculo Zona de Risco | Cartaz 2008
Cartaz para a divulgação do espetáculo Zona de Risco | Cartaz 2008

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Cartaz para a divulgação do espetáculo Zona de Risco | Cartaz 2009
Cartaz para a divulgação do espetáculo Zona de Risco | Cartaz 2009

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Cartaz para a divulgação do espetáculo Zona de Risco | Cartaz 2008
Cartaz para a divulgação do espetáculo Zona de Risco | Cartaz 2008

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Processo de criação cênica colaborativa utilizando colagem de textos e imagens, tendo como tema a guerra e a violência na cidade do Rio de Janeiro. Teatro Noel Rosa, 2008 e 2009.

 
FICHA TÉCNICA
Concepção e Direção

Nanci de Freitas

Roteiro

Nanci de Freitas

Elenco

Fabricio Gabriel 

Jéssica Orem 

Pedro Carneiro

Rodrigo Claro 

Fragmentos Textuais

Poema sujo, de Ferreira Gullar

A morta, de Oswald de Andrade

O teatro e seu duplo, de Antonin Artaud

Polícia e Bandido, de Leandro Sapucahy

Apocalipse, de São João

Manifesto Futurista, de F. T. Marinetti

Manifesto Rio de Paz pela Redução de Homicídios Malícius, o proliferador de maldades, de Fabricio Gabriel

Além de textos, de Eric Hobsbawm

Ludwik Flaszen e um depoimento, de Catiane Soares da Silva

Dramaturgia Cênica

Processo colaborativo com a participação dos

estudantes do Instituto de Artes:
Fabricio Gabriel

Catiane Soares

Jéssica Orem

Mabeli dos Santos Fernandes

Marcelo Augustinho

Pedro Carneiro

Rodrigo Claro Vieira

Criação da Trilha Sonora

Arthur Batista Cordeiro (LCV)

Edição da Trilha Sonora

Arthur Batista Cordeiro

Fabricio Gabriel

Música que compõe a Trilha Musical
A Cavalgada das Walkirias, de Richard Wagner 

Gravação de Áudio

Carlos Eduardo Alves Batista (Web rádio: CTE)

Criação e Edição de Vídeo

Arthur Batista Cordeiro e Fabrício Gabriel

Iluminação

Pedro Carneiro

Colaboração Cenográfica

Profa. Cristina Pape (ART)

Figurino

O Grupo

Cartaz

Marcelo Augustinho

Arthur Batista Cordeiro

Montagem de Luz e Som

Equipe técnica da Divisão de Teatro (Decult/Sr3)

Coordenação Técnica

César Germano de Oliveira

Coordenação de Produção

Nanci de Freitas

Assistente de Produção

Juliana de Oliveira Augusto

Catiane Soares da Silva

Clarice Duarte Rangel

Apoios

Instituto de Artes da UERJ

Laboratório de Cinema e vídeo – LCV, Decult/SR3

Divisão de Teatro

COART

Depext/SR3

Cetreina

CTE (Web Rádio e COPSON)

Comuns

Gráfica UERJ

O Projeto Contou com Estudantes Bolsistas

Bolsa PIBIC-UERJ (Iniciação Científica)

Bolsa de extensão (Depext- SR3)

Bolsa de monitoria

Bolsa de estágio interno complementar (Cetreina)

Bolsa de incentivo à graduação (Proiniciar-Faperj)

Agradecimentos

Prof. Roberto Conduru (Direção ART)

Profª Vera Beatriz Siqueira (Vice-direção ART)

Prof. Jorge Luiz Cruz (L.C.V/ ART)

Profª Cristina Pape (ART)

Profª Eloisa Brantes (ART)

Prof. Ricardo Gomes Lima (Decult/SR3)

Profª Maria Lúcia Galvão (Divisão de Teatro)

Profª Aureanice de Mello Corrêa (COART)

César Germano de Oliveira (Divisão de Teatro)

Alba Valéria Ribeiro (Divisão de Teatro)

Giseli Vasquez Sobral (Web Rádio – CET)

Douglas da Silva Cortes

Equipe do Teatro Noel Rosa

Equipe da COART

 

Foto: Joanna Balabram | Zona de Risco
Foto: Joanna Balabram | Zona de Risco

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Foto: Joanna Balabram | Zona de Risco
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Foto: Joanna Balabram | Zona de Risco
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Foto: Alba Ribeiro | Zona de Risco
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Foto: Joanna Balabram | Zona de Risco
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Foto: Alba Ribeiro | Zona de Risco
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Foto: Joanna Balabram | Zona de Risco
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Foto: Maria Lucia Galvāo | Zona de Risco
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Foto: Joanna Balabram | Zona de Risco
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O TEATRO NA ZONA DE RISCO
TEXTO DE NANCI DE FREITAS
Foto: Alba Ribeiro | Zona de Risco

Foto: Alba Ribeiro

Zona de risco foi uma experiência cênica que surgiu da necessidade de abordar o tema da violência, um estado de guerra que perpassa nossa realidade e que aprendemos a olhar de modo distanciado. A criação cênica busca uma forma própria de materializar a urgência do tema, atuando de modo performático como um manifesto.

O ato poético foi construído por meio de um processo colaborativo, sob a orientação da professora Nanci de Freitas, com a participação de estudantes do Instituto de Artes da UERJ. Os estudantes trabalharam como atores e integrantes das equipes de criação artística, atuando na pesquisa, produção e montagem dos elementos cênicos (cenários, figurinos, trilha sonora, vídeo, iluminação e programação visual), além da colaboração no roteiro cênico-dramatúrgico. O roteiro foi construído a partir da colagem de textos (poemas, crônicas, recortes de jornais, depoimentos, manifestos), tendo como ponto de partida o Poema Sujo, de Ferreira Gullar; e tomando como referência o Manifesto Rio de Paz Pela Redução de Homicídios, texto chave de um movimento que atua no Rio de Janeiro, em discussão permanente da questão (riodepaz.org.br).

Além das textualidades, o roteiro cênico se organiza por diversas camadas narrativas, na mediação com formas artísticas que se hibridizam e com a presença das imagens visuais e sonoras, em permanente tensão de sentidos. Cenas carregadas de metáforas e alegorias tendiam à multiplicação de referências. As manifestações cênicas cruéis, às vezes, provocavam uma sensação apocalíptica e catártica, no entanto a linguagem sugeria uma encenação ‘desdramatizada’, reforçada pelas quebras de direção, quadros e cortes instantâneos, vozes em off, surpresas e atrações, imagens que reorientavam a percepção do espectador para variados pontos de vista. A assimilação de uma perspectiva cênica épica ganhava ênfase pela presença dos quatro atores em cena todo o tempo do acontecimento teatral: atuando ou narrando, montando as próprias cenas, ajudando a compor as dos parceiros e se juntando em momentos coletivos.

 
MALÍCIUS: O PROLIFERADOR DE MALDADES
Cena escrita e interpretada por Fabricio Alvares Gabriel | 2008

(Palco às escuras)

(Incide por todo o palco uma luz azul, em meio a uma leve neblina. Aos poucos vai saindo do chão Malícius. Uma música aterrorizante de fundo. Ao sair de seu casulo, ele olha para o mundo com curiosidade e começa a brincar com seu guarda-chuva. De repente, um corte no clima e na música. Entra a luz branca geral no palco, de forma ofuscante, e Malícius, ao centro, olha para cima e discute de forma bem zangada e gesticulando)

Estão olhando o que seus enxeridos? Vão cuidar de suas vidas!!!!!!!!!!!!!! 

(Mais calmo e resmungando) - Esses cientistas acham que podem me fazer de objeto de estudo!!!!! (com firmeza) Sempre estive alojado nas mentes humanas. Agora, que instauro tempos catastróficos de terror e violência e ganho status enquanto doença, eles enxergam na minha descoberta uma possível cura.

(Olha para a platéia)

 (Exaltando-se) - Mas não. (Pausa) Os homens são meus objetos, meus hospedeiros. (mais calmo e de forma explicativa) Estou presente em cada um deles, pronto para me manifestar. (Para de um lado do palco e, gargalhando, bate com o pé no chão, não se agüentando de tanto rir, até que pára e corre alucinado para o outro lado do palco, um pouco a frente) Nem mesmo eu sei de que tecido é feita

Fabrício Alvares Gabriel

Fabricio Gabriel é artista visual e arte-educador, com graduação pelo Instituto de Artes da UERJ (Licenciatura em Artes Visuais, em 2010 e Bacharelado, em 2013).  Integrou a equipe do Mirateatro como bolsista de Extensão, Monitoria e Iniciação Científica, atuando como ator, assistente de produção e na criação de vídeos. Criou a logomarca do Mirateatro. Atualmente, é professor de Artes Visuais nas redes públicas de ensino dos municípios do Rio de Janeiro e de Duque de Caxias, tendo atuado também na rede do estado do Rio de Janeiro.

minha carne, estou perfeitamente fora do rigor cronológico, sou ser do corpo. (Dá um passo para frente e indaga a platéia) Mas que é o corpo? O corpo feito de carne e de osso. Esse osso que não vejo, maxilares, costelas. Flexível armação que o sustenta no espaço (gesticula com a mão), que não o deixa desabar (bate as costas de uma mão sobre a palma da outra) como um saco vazio que guarda as vísceras, todas funcionando como retortas e tubos do Corpo-facho corpo-fátuo-corpo-fato (vai reduzindo até cair no chão de joelhos).

(Voltando à sã consciência e dirigindo-se ao público) - Oh, me desculpe!!!! Para quem não me conhece sou Malícius, o vírus proliferador de maldades, a seu dispor e terror. (Sempre muito debochado e gargalhando)

(Como no despertar de uma idéia ou lembrança) – Esperem!!! Esperem!!! ( sai para a esquerda, pega sua mala, a põe no centro do palco) -  Bem! Vamos aos presentes que trago em minha mala. Vocês sabem o que tenho aqui? Não? Tenho tudo que o homem precisa para ter o que mais quer, o poder.

Foto: Joanna Balabram | Zona de Risco

Foto: Joanna Balabram

(De forma transloucada, começa a retirar da mala muitas quinquilharias e vai falando como um profeta) – Com esses agrados, eu os elevo comigo sobre continentes e mares, mas também os faço rastejar (se joga no chão e rasteja) pelos túneis das noites clandestinas sob o céu constelado do país, entre fulgor e lepra, debaixo de lençóis de lama e de terror. Os arrasto por avenidas e vaginas (neste ponto, entra por debaixo da mesa, se pendura na mesma e olha para o público) entre cheiros de gás e mijo, a consumi-los como um facho-corpo sem chama. 

(Pausa, certa surpresa) – Aqui, sim aqui!!!!! (Retira bijuterias da mala, as veste e depois retira um bolo de dinheiro) – A riqueza, the Money, um dos maiores atrativos na disputa pelo poder (passa as notas pelo corpo e as jogas para o alto). (Risada). Os homens são facilmente atraídos pelo dinheiro e violentam-se por toda vida e por toda a história por uma coisa que não fará nenhuma diferença quando estiverem mortos.

(Ri, vai novamente à mala e pega um livro) – Uuuuuuuuuuuuuuhhhhhhhh!!!!!!!!!!! O conhecimento!? Claro, o conhecimento!!!!!!! (vai até uma das escadas e fala para o público) Quando sob a posse de mentes demoníacas, é um aperitivo genial da maldade. (com um ar de sábio, desce as escadas vai até o meio da parte que separa o palco da platéia, pega um dos livros, começa a folhear até que acha o trecho que quer e começa a ler):

“Não há mais beleza, a não ser na luta. Nenhuma obra que não tenha um carácter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças desconhecidas, para obrigá-las a prostrar-se diante do homem.”

(Fecha o livro provocando um barulho, corre para a outra escada e diz como se fosse um profeta) Se não for por isso “metam logo fogo nas prateleiras das bibliotecas”.

(Continua a procurar na mala e enquanto fala, retira e lança estalinhos e talco).  – Mas o que eu mais gosto são as armas!!! O cheiro de pólvora!!!! Catabuuuuuuummmmmmmm!!!! Os elementos químicos tóxicos e os biológicos contagiosos!!! Criação genial. As armas são mais diretas, são o pico de toda a violência presente nos corações perturbados!!!!!!(Como se fosse fazer uma surpresa, retira da bolsa, com certo ar malicioso, um conjunto de fichas circulares) - E por último, apresento as Guerras. A única Higiene do Mundo. (fala o nome das guerras e vai jogando as fichas para o alto) – São várias: Guerra atômica, Guerra bacteriológica, Guerra biológica, Guerra civil, Guerra convencional, Guerra de extermínio, Guerra de morte, Guerra de movimento, Guerra de posição, Guerra de trincheira, Guerra de Nervos, Guerra econômica, Guerra fria, Guerra global, Guerra intestina, Guerra

de nervos, Guerra limitada, Guerra localizada, Guerra nuclear, Guerra química, Guerra revolucionária, Guerra santa, Guerra total.

(Risada) (enquanto fala acaricia e brinca com um globo terrestre de forma sarcástica e ao final da indagação o chuta) – Por acaso, vocês ainda acham que a humanidade tem esperança? (Com raiva) Basta uma gota d’água e o bicho pega, o coro come. É aí que a chapa esquenta, não tem acerto, é pedir terror, não tem perdão.

(Certo ar de deboche) – As criaturas humanas são perfeitas. (pausa) Mas nem sempre são inteligentes. (Com raiva e choroso) Me julgam como se eu fosse o culpado, no fundo querendo estar à margem do seu pesadelo. Covardes!!!!!

(Indignado) - O Pior são aqueles que resistem a mim, possuem anticorpos, não apresentam sintomas.

(Convencido de si) – É, eles ainda se contaminarão. De geração em geração, se eu morrer vem outro em meu lugar. Somos uma máquina de massacre provavelmente sem precedentes. (Gargalhada) Injustiça para todos os homens de bem!!!

(Como se estivesse escutando alguém falando em seu ouvido por meio de um fone, fala gaguejando e aparentando medo) 

Como assim?!! Cientistas de várias partes do mundo?! Se reuniram!? Descobriram?! Descobriram o que? Um elemento presente nos corações dos não contaminados que reage positivamente contra min. 

(Desesperado) – Não, Não!!! (Uma fumaça forte começa a encobrir Malícius) Injustiça para todos os homens de bem!!!

Foto: Juliana Augusto | Zona de Risco

Foto: Juliana Augusto

DEPOIMENTO SOBRE A EXPERIÊNCIA
CÊNICA ZONA DE RISCO
POR NANCI DE FREITAS  |  2009
 

Nanci de Freitas é atriz, encenadora e Professora Associada do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, atuando no Departamento de Linguagens Artísticas, nas disciplinas de Teatro e de Performance. Coordena o projeto de extensão Mirateatro! Espaço de estudos e criação cênica, desde 2007, e o Laboratório de Artes Cênicas – LabCena, desde 2012, onde realiza experiências artísticas. Desenvolve a pesquisa intitulada Cena contemporânea, corpo, imagem, performatividade, no Programa de Pós-graduação em Artes – PPGArtes, com estudos relacionados aos entrelaçamentos do teatro com as artes visuais, o vídeo e a performance.

 
FRAGMENTOS DO POEMA SUJO, DE FERREIRA GULLAR NO ROTEIRO DE ZONA DE RISCO

do teu corpo do meu corpo
 

corpo
que pode um sabre rasgar 
um caco de vidro 
uma navalha
meu corpo cheio de sangue

 

com meu corpo-falo
insondável incompreendido
meu cão doméstico meu dono
cheio de flor e de sono
meu corpo-galáxia aberto a tudo cheio
de tudo como um monturo
de trapos sujos latas velhas colchões usados sinfonias
sambas e frevos azuis
de Fra Angelico verdes
de Cézanne
matéria-sonho de Volpi 
Mas sobretudo meu
corpo

 

Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás 
e mijo a me consumir como um facho-corpo sem chama, 

 

Garfos enferrujados facas cegas cadeiras furadas mesas gastas
 

voais comigo 
sobre continentes e mares 

E também rastejais comigo 
pelos túneis das noites clandestinas
sob o céu constelado do país 
entre fulgor e lepra
debaixo de lençóis de lama e de terror 

 

armários obsoletos gavetas perfumadas de passado, 
 

dobrais comigo as esquinas do susto 
 

Do corpo, do teu corpo do meu corpo/ corpo/ que pode um sabre rasgar / um caco de vidro/ uma navalha/ meu corpo cheio de sangue./ O sangue que faz a carne e o pensamento/ e as palavras/ e as mentiras/ e os carinhos mais doces, mais sacanas.

 

Corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato/ com meu corpo-falo/ Mais sentidos/ para explodir uma galáxia/ de leite/ no centro de tuas coxas no fundo/ de tua noite ávida/ cheiros de umbigo e de vagina/ graves cheiros indecifráveis/ /como símbolos/ do corpo. 

 

Nem mesmo eu sei de que tecido é feita minha carne, estou perfeitamente fora do rigor cronológico, sou ser do corpo. 

Mas que é o corpo? O corpo feito de carne e de osso. Esse osso que não vejo, maxilares, costelas. Flexível armação que o sustenta no espaço, que não o deixa desabar como um saco vazio que guarda as vísceras, todas funcionando como retortas e tubos do Corpo-facho corpo-fátuocorpo-fato.

 

Eu os elevo comigo sobre continentes e mares, mas também os faço rastejar pelos túneis das noites clandestinas sob o céu constelado do país, entre fulgor e lepra, debaixo de lençóis de lama e de terror. Os arrasto por avenidas e vaginas entre cheiros de gás e mijo, a consumi-los como um facho-corpo sem chama.

 

Na noite fria das ruas da cidade vejo no céu e ouço o barulho da metrópole sangrenta.

 

Garfos enferrujados, facas cegas, cadeiras furadas, mesas gastas, palavras ditas à mesa do jantar. 

 

A cada nova manhã, nas janelas, nas esquinas, nas manchetes dos jornais. Mas a poesia não existia ainda. (dança com uma bandeira do Flamengo).

 

Homem morto no mercado, sangue humano nos legumes. Mundo sem voz, coisa opaca.

 

Debaixo de lençóis de lama e de terror, mesas velhas, armários obsoletos, gavetas perfumes de passado.

Foge comigo sob as sombras do medo. Dobrais comigo as esquinas do susto e da pobreza. E as palavras e as mentiras serão muitas a cada manhã. 

Por minha cidade azul/ Pelo Brasil salve, salve !!!

Foto: Alba Ribeiro | Zona de Risco

Foto: Alba Ribeiro

Foto: XXXXX | Zona de Risco

Foto: Joanna Balabram

Foto: Marcellus Nogueira | Zona de Risco

Foto: Marcellus Nogueira

 
MANIFESTO RIO DE PAZ PELA
REDUÇÃO DE HOMICÍDIOS
ONG RIO DE PAZ  |  2007

A violência é o problema social mais grave do nosso país. Nos últimos dez anos 500.000 brasileiros foram vítimas de homicídio. Entre 1991 e novembro de 2007 foram assassinados 115.999 cidadãos somente no Estado do Rio de Janeiro, segundo dados oficiais. Cerca de 80% destas vítimas tiveram a vida interrompida na região metropolitana do Rio; a maioria esmagadora dos mortos era de moradores de comunidades pobres das Zonas Norte e Oeste da capital e Baixada Fluminense. Agravando muito este quadro, não se sabe quantos dos mais de 4.000 desaparecidos deste ano também terão sido assassinados. São números inaceitáveis. Representam o colapso do pacto social no seu item mais fundamental, o direito à vida. Nós, cidadãos brasileiros, reconhecemos o erro de havermos permanecido calados. Temos visto milhares de pessoas serem mortas pelo crime e não temos oferecido a devida e necessária resistência.

Foto: Joanna Balabram | Zona de Risco

Foto: Joanna Balabram

Foto: Joanna Balabram | Zona de Risco

Foto: Joanna Balabram

Sendo assim, entendemos que não basta culpar o Poder Público, os bandidos, ou aguardar que essa mortalidade obscena seja reduzida com o correr do tempo e as atividades dos mesmos. O país agora, mais do que nunca, carece da mobilização de todos nós, homens e mulheres que reconhecem o valor incalculável da vida humana. Precisamos nos unir às autoridades, cidadãos de todas as origens e histórias, a fim de contribuir para a maior conquista social de toda a sua história: a vitória da vida sobre a morte.

O Rio de Paz, após ouvir as principais autoridades em segurança pública do nosso estado, e vários especialistas, por meio deste manifesto apresenta as principais medidas necessárias à segurança pública, para que em 2008 comecemos a experimentar uma redução expressiva no número de homicídios. Não aceitamos - em hipótese alguma – o argumento derrotista de que não há o que fazer para que o enorme número de homicídios de 2007 não se repita em 2008.

 
ROTEIRO DE ZONA DE RISCO
Concepção e direção: Nanci de Freitas  |  24 de maio de 2009

Cena 3 – O teatro em ruinas

Os atores começam a se preparar para desenrolar o tecido vermelho, que vai desenhar um retângulo pelo palco. Cada um diz um fragmento de textos do Teatro da crueldade, de Antonin Artaud, e da peça A morta, de Oswald de Andrade.

Rodrigo: “O teatro como a peste desenreda conflitos, libera forças, aciona possibilidades; e se essas possibilidades e essas forças são negras, a culpa não é da peste ou do teatro, mas da vida” (Artaud).

Jéssica: “A crueldade é lúcida, é uma submissão à necessidade. É a consciência que dá ao exercício de todo ato da vida sua cor de sangue, sua nuance cruel, pois está claro que a vida é sempre a morte de Alguém” (Ataud).

Pedro: “Estamos nas ruínas misturadas de um mundo. Os personagens não são unidos quando isolados. Em ação são coletivos. Como nos terremotos de vosso próprio domicílio ou nas mais vastas penitenciárias, assistireis o indivíduo em fatias e vê-lo-eis social ou telúrico” (Oswald de Andrade: A morta).

Foto: Maria Lucia Galvão | Zona de Risco

Foto: Maria Lucia Galvão

Fabrício: “Não vos retireis das cadeiras horrorizados com a vossa autópsia (...) sede alinhados e cínicos quando atingirdes o fim de vosso próprio banquete desagradável” (A morta).

Rodrigo: “Respeitável público! Não vos pedimos palmas, pedimos bombeiros! Se quiserdes salvar as vossas tradições e a vossa moral, ide chamar os bombeiros ou se preferirdes a polícia! Somos como vós mesmos, um imenso cadáver gangrenado! Salvai nossas podridões e talvez vos salvareis da fogueira acesa do mundo!” (A morta). 

Foto: Alba Ribeiro | Zona de Risco

Foto: Alba Ribeiro

Cena 10 - Apocalipses

Cena com uma sequência de ações físicas com cadeiras (Pedro, Rodrigo, Fabrício).

Música: A cavalgada das Walquírias (Wagner). Vozes em off: 

Nanci: “Num domingo, fui arrebatado de êxtase, e ouvi uma voz forte como de trombeta, que dizia: O que vês escreve-o num livro e envia-o a todos os homens. Escreve, pois, o que viste: tanto as coisas atuais como as futuras” (Ap 1, 10-11. 19). 

(Sons de trovões e relâmpagos, trote de cavalos, relinchos, bombas. Trombetas). 

Pedro: “Eu vi aparecer um cavalo branco, e o seu cavaleiro tinha um arco; foi-lhe dada uma coroa, e ele partiu como vencedor para tornar a vencer”.

Fabrício: “Eu vi um cavalo vermelho e ao que o montava foi dado tirar a paz da terra, de modo que os homens se matassem uns aos outros, e foi-lhe dada uma grande espada”. 

Rodrigo: “Eu vi um cavalo preto, com uma balança vazia, carregando a fome”.

Jéssica: “Eu vi um cavalo esverdeado, e o seu cavaleiro espalhava a peste. Seu nome era morte e a região dos mortos o seguia”. 

Nanci: “Formou-se uma úlcera maligna sobre a terra. O mar tingia-se de sangue. O sol espalhou seu fogo sobre a terra”. “Eu vi um grande terremoto, escurecendo o sol e tingindo a lua de sangue, com uma multidão de todas as nações, línguas e tribos implorando por salvação”. 

Fabrício: “Eu vi uma cavalaria infernal: duzentos mil homens. Das narinas dos cavalos saíam fogo, fumaça e enxofre. E a terça parte da terra foi destruída.”

Pedro: “Vamos assistir. É um espetáculo empolgante. Há buracos na trincheira. Espia!”. 

Rodrigo: “Milhões de homens ficavam uns diante dos outros, nos parapeitos de trincheiras, barricadas com sacos de areia, sob as quais viviam como ratos e piolhos”. 

Jéssica: “Levas de homens saíam por cima do parapeito para a “terra de ninguém”, um caos de crateras de granadas inundadas de água, tocos de árvores calcinadas, lama e cadáveres abandonados, e avançavam sobre as metralhadoras, que os ceifavam.” 

Fabrício: “Que será aquilo?”. “Um bicho enorme. Tem sete cabeças e dez cornos!”. “Ajoelha-te! É a besta do Apocalipse. A mãe da guerra".

Foto: Juliana Augusto | Montagem do cenário: criação de Cristina Pape | Zona de Risco

Foto: Juliana Augusto
Montagem do cenário: criação de Cristina Pape 

 
TEASER DE ZONA DE RISCO
Teaser de Arthur Cordeiro. Vídeo editado a partir de experiência cênica Zona de Risco, dirigida por Nanci de Freitas, em 2009, pelo Mirateatro! Espaço de estudos e criação Cênica. Narrativa do teaser a partir do depoimento de Catiane Soares da Silva.

Clique na imagem abaixo para acessar o vídeo através do canal do YouTube do Mirateatro

Zona de Risco Trailer Youtube.jpg
 
VÍDEO PROJETADO EM CENA
Autores: Arthur Batista Cordeiro e Fabricio Gabriel.

Clique na imagem abaixo para acessar o vídeo através do canal do YouTube do Mirateatro

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