PELE TECIDO

Cartaz para a divulgação do espetáculo Pele Tecido | Projeto Gráfico: Laís M.

A poesia de Ericson Pires nos assombra com a força libertária que, à maneira de um Walt Witman, afirma no livro Pele Tecido: “vai, este será o sentido!”; com a entrega do corpo à matéria da poesia: “aquele que escreve é também aquele que é escrito”. E sua intensidade se traduz num quase epitáfio, que ultrapassa a (im) possibilidade de tanta força vital: “O homem acabou. sobra desejo. sobra força. sobra o que continua. ninguém pode esperar sem o seu desejo. o destino é o desejo. o desejo nunca existiu. o desejo é o desejo. resto”. É tanto no “resto” quanto no “desejo” que nos embrenhamos na urgência de abraçar as palavras de Ericson, do livro Pele Tecido, para matar a saudade e nos contaminar de sua força telúrica e criativa, num processo artístico cheio de riscos, que se apresenta como performance cênica, buscando um modo de dizer, fazer e se conectar com sua fala poética. 

Foi brincando seriamente na tentativa de viajar junto com o tecelão, que o coletivo formado para esta travessia se viu solto no labirinto de Ericson, entrelaçando palavras, sons, corpos, imagens, afetos, cores e vozes. As pesquisas plásticas e sonoras levaram à criação de uma cena contemporânea, no limite da arte nas fronteiras, marcada pelo hibridismo de linguagens, mesclando texto falado e gravado, vídeos dos atores em contraponto à presença em cena, registros de processos, músicas reproduzidas mecanicamente e sonoridades realizadas ao vivo, performances com a utilização de tecidos e uma ambientação entrelaçada de fios e marcada por fluxos luminosos de recursos alógenos e de led, sugerindo uma instalação de artes visuais. Mesclando presença e ausência, a encenação performática busca, junto do público, o encontro com a urgência da poesia de Ericson Pires.

 
FICHA TÉCNICA
Poemas

Ericson Pires

 

Livro

Pele Tecido (7 Letras, 2010).

 

Direção

Nanci de Freitas

 

Elenco

Carol Moreira

Giovana Adoracion

Rodrigo Claro

 

Iluminação

César Germano

 

Montagem e operação de luz

César Germano

 

Cenografia

Carol Moreira

Criação e edição de vídeos

Pedro Henrique Borges

Operação de multimídia (som e vídeos)

Pedro Henrique Borges

Trilha sonora original

Giovana Adoracion

Produção da trilha sonora

Giovana Adoracion

Gravação de áudio

Laboratório S.O.N.A.R. – Sonoridades,

Organicidades, Nomadologias,

Artes e Radiofonias

(Instituto de Artes/UERJ)

Coordenador

Marcelo Wasem

Gravação

Mariana Brum e Thatiana Montenegro

Finalização

Maria Clara Soares e Vitor Rocha

Programação visual

Laís Maria

Fotografias de cena

Elizeth Pinheiro

Figurinos

o grupo

Produção e divulgação

o grupo

Coordenação técnica

César Germano

Coordenação geral

Nanci de Freitas

Foto: Elizeth Pinheiro | Pele Tecido
Foto: Elizeth Pinheiro | Pele Tecido

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Foto: Elizeth Pinheiro | Pele Tecido
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Foto: Elizeth Pinheiro | Pele Tecido
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Foto: Elizeth Pinheiro | Pele Tecido
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Foto: Elizeth Pinheiro | Pele Tecido
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Foto: Elizeth Pinheiro | Pele Tecido
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Foto: Elizeth Pinheiro | Pele Tecido
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ERICSON PIRES: A POESIA EM BUSCA DA
INSTANTANIEDADE DO INSTANTE
TEXTO DE NANCI DE FREITAS, 17 DE NOVEMBRO DE 2015
Ericson Pires | Foto: Julio Pereira

O poeta carioca Ericson Pires (1971 – 2012) fez uma travessia intensa em seu percurso de 40 anos de vida, em grande parte entrelaçados com a experiência artística como poeta, ator, músico e performer, desdobrando-se pelas brechas entre as fronteiras das linguagens, numa atuação na qual vida e arte se misturam. No desejo de capturar a “instantaneidade do instante do instante”, Ericson construiu uma trajetória que passou pelo movimento de poesia CEP 20.000, pelo coletivo de música Hapax e a militância na política das artes, do corpo e no cotidiano urbano da cidade do Rio de Janeiro. Mestre e Doutor em Literatura pela PUC RIO, onde realizou pesquisas que resultaram nas publicações dos livros: Zé Celso Oficina-Uzyna de corpos (Editora Annablume, 2004) e Cidade Ocupada (Aeroplano, 2007). Como poeta, publicou os livros: Cinema de garganta (Azougue, 2002) e Pele tecido (7 Letras, 2010).

Ericson Pires foi professor no Instituto de Artes da UERJ, a partir de 2007, no Departamento de Linguagens Artísticas. Foi um dos cinco professores que assinaram, como pesquisadores associados, o projeto aprovado num edital da FAPERJ, em 2011, para a implantação do Laboratório de Artes Cênicas, espaço que ele não viu concluído e onde o Mirateatro realizou a experiência cênica com os poemas de seu livro Pele Tecido, uma pequena homenagem à sua participação nos meandros da vida acadêmica e suas relações (in) tensas entre arte e universidade. Sua presença e sua fala afiada ronda nossa memória de encontros, espaços, corpos, embates, performances.

O livro de poemas Pele Tecido apresenta uma estrutura em 20 Cantos, um Prólogo e um Epílogo, pelos quais o poeta/tecelão realiza um percurso em busca de si e do mundo, numa tessitura da linguagem e da arte. O corpo e a língua são os canais por onde se faz a travessia e a costura. O conjunto dos Cantos se organiza como uma (quase) narrativa do trajeto por onde “todas as linhas foram trançadas”, composto por episódios do caminho do poeta-tecelão, que começa pela indicação: “Há fim sempre que se faz início”. E numa perspectiva do “Lá” como ponto de fuga e de chegada, tecido pelo acaso, ação, enlace, o momento do gesto e da força. Conectando o fluxo e o devir das “melodias insondáveis do antes”, onde “o sol era só sol. o chão era só chão”, o poeta segue: “Sou a boca que canta. Sou som da boca. Sou só boca. Sou início”. No Canto matinal, algo tece e nasce do sol: “Meu corpo no sol/todo o sol no meu corpo/sol/meu corpo/meu corpo sol/todo dia é/ brilho vivo”.

O poeta-tecelão mergulha em si, no seu silêncio, som e fala. “Tecer-se/ em cada linha que cruza/ em cada ponto que surge/ em cada salto que escapa”. Atravessa, rompe o tempo-espaço e busca a velha fala para construir a sua. Não nega os mestres. “Reinvento a necessidade de penetrar o corpo da língua. As coisas devem novamente ser ditas”. TEAR. Na linha escrita da arte e da vertigem de existir, a consciência do ser, de estar, de ter um fio. E o receio: “Serei só o número ímpar no destacamento?” A busca alucinada de contato: “Não quero ser no sou só. Encontrar fios”. “Eu preciso!” E desistindo: “Me esqueça!”. Para então continuar de novo nas miragens e novas buscas: muitas rotas, plantas, milhas. Na estrada. Na busca de um dia perfeito. E do som. 

A travessia tem seu (des) limite: “o instante é a única medida agora”. O poeta enfrenta portas que precisam ser rompidas: “A porta cede, sede aberta”. Atravessamentos. Solto no labirinto: “Eu vejo tantas coisas, vejo cem partes das coisas, rua aberta, suas pernas abertas”. E uma rede direta (com armadilhas no meio, as tentações!), mas atento e forte: “A minha fortuna é olho aberto”. Cruzando a ponte coberta, túnel dos muitos lugares, “é necessário manter o corpo aberto/ o topo aberto/o toque aberto/o foco aberto/manter aberto tudo que escoa/tudo que esvai”.

Capa do livro Pele Tecido, de Ericson Pires

Passagens pelo “meio infindável sem fim”, paisagens e miragens do outro: espreitando o todo, o “todo dia é”, “o que não acaba/ meio/ chegada/fim entrada/meio/fim/meio”.

 

No projeto pele poesia tecido de Ericson pulsam elementos dramáticos, que sugerem a presença de interlocutores a quem o poeta se dirige e busca encontros. “O tecelão segue”. Fazendo com ele o percurso cênico que inventamos, somos o poeta e seu lirismo, subvertemos o conflito e mergulhamos nas estações de seu drama indivíduo-coletivo.  Para chegar no lugar algum em que “haverá sempre o que não termina, o que não começou, o que já era”. Mas poderá haver. “Haverá o outro, Os outros, o diferente, a diferença”. Haverá sempre o início e o fim. Todo dia será sempre o primeiro: “Esta a ciência do espanto: Importante é andar, seguir. Haverá sempre o dia 1”. Para, enfim, poder sambar: “saio/ sambo inteiro/deixo minha pele tecido brilhar/não ando mais/sambo/ – e viva a geral!!!”

Nanci de Freitas

Nanci de Freitas é atriz, encenadora e Professora Associada do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ, atuando no Departamento de Linguagens Artísticas, nas disciplinas de Teatro e de Performance. Coordena o projeto de extensão Mirateatro! Espaço de estudos e criação cênica, desde 2007, e o Laboratório de Artes Cênicas – LabCena, desde 2012, onde realiza experiências artísticas. Desenvolve a pesquisa intitulada Cena contemporânea, corpo, imagem, performatividade, no Programa de Pós-graduação em Artes – PPGArtes, com estudos relacionados aos entrelaçamentos do teatro com as artes visuais, o vídeo e a performance.

 
ESPACIALIDADE SONORA
E VIRTUALIDADES
TEXTO DE GIOVANA ADORACION
Giovana Adoracion

Giovana Adoracion é cantora, compositora, instrumentista e produtora musical. Cursou a graduação em História da Arte, no Instituto de Artes da UERJ. Iniciou aulas de canto e teoria musical na escola Espaço das Músicas, em Niterói, em 2005, e participou do projeto Pirandello Contemporâneo, na Universidade Federal Fluminense. Integrou o Mirateatro, em 2015 e 2016, atuando na experiência cênica Pele Tecido como performer e também como criadora da trilha sonora. Atualmente, dedica-se à carreira de cantora, tendo fortes influências de jazz, soul, blues, bossa nova e sambajazz, participando ativamente dos circuitos profissionais de música do Rio de Janeiro.

A trilha sonora original de Pele Tecido é tecida de forma a participar da grande collage que compõe a performance cênica, como um outro elemento que auxilia na "vestimenta" destas poesias. A trilha não tem uma pretensão de destacar-se do espetáculo como a parte sonora do mesmo. Na verdade, ela segue uma lógica anti-musical, de forma a dar uma cor, uma forma à cena. As percepções exploradas, ao buscar esta sonoridade para o espetáculo, são muito mais espaciais e sensoriais; são visualmente virtuais, uma vez que o som busca, em prática, gerar uma ambientação, ritmo e funciona como uma espécie de padronagem dada a cada cena, pois sua composição e produção utilizam loops com esse objetivo sensorial.

Justamente um tecido. Um tecido sonoro, porque pode ser reconhecido em um fluxo que persegue este mesmo local imaginário aonde ocorrem os poemas.

Qual som existe nos ambientes em que nenhum som pode ser controlado? Qual é o som do universo, por exemplo? E de lá, de onde nada ainda era nada, e o sol já era sol, porém sem nome? Aonde o chão era chão, mas sem nome. O som era som, como dito no prólogo de Pele tecido. Não há uma cronologia clara observada nos poemas, mas pode-se estabelecer uma costura entre os temas que se repetem, com diferentes perspectivas de um mesmo assunto talvez. Eu os vejo fazendo sentido dentro deste espaço virtual, onde se encontram os anseios e desejos, mas também contendo o cotidiano, visto por olhos gulosos que nada querem perder na percepção.

Os loops também surgem com a ideia do recomeço constante, imagem que é sempre reafirmada no livro, de diferentes formas - "todo dia é o dia 1". Imagem que vem com este tecido de infinitas infinidades, uma dentro da outra, gerando seus próprios ritmos e melodias orgânicas, que se alternam nas faixas da trilha entre células que possuem perfeita métrica e divisão na mudança de um acorde a outro e de uma nota para outra também. E outras faixas que, propositalmente, gostariam de romper o espaço virtual do ambiente, mas lançando mão do recurso da quebra do tempo e da ideia de uma harmonia e melodia - esta é a primeira faixa. O prólogo. 

Foto: Elizeth Pinheiro | Pele Tecido

Foto: Elizeth Pinheiro

Em algumas músicas, as quebras na expectativa são as marcas da humanidade impressa no trabalho. Como se, comparando à ideia da imagem, existisse música realista e música não-realista. De fato, a música contemporânea é extremamente diferente da música clássica, mas nenhuma das duas é considerada "mais fiel à realidade ou não" e, no caso desta trilha, é exatamente isso. As músicas desenvolvidas neste processo de absorção e releitura da poesia de Ericson, em forma de som, geram em mim, enquanto artista, justamente a necessidade de colocar o sentido em signos anti-musicais. Atuando dentro da realidade da performance enquanto um de seus elementos, como um cenário ou figurino, a música é colocada entre os performers e objetos de cena como um elemento que também tem sua espacialidade. Mas ela se dá virtualmente, no espaço da mente. 

 
RELATO SENSÍVEL
TEXTO DE Luis Otávio Oliveira Campos
Luis Otávio Oliveira Campos

Luis Otávio Oliveira Campos é professor de artes, graduado em Licenciatura em Artes Visuais pelo Instituto de Artes, em 2019. Trabalhou como estagiário no Museu de Arte do Rio – MAR e na COART/DECULT UERJ. Atuou como arte-educador no Instituto Casa Roberto Marinho. Atualmente, cursa o Mestrado em Artes no PPGartes UERJ.

Foto: Elizeth Pinheiro | Pele Tecido

Foto: Elizeth Pinheiro

O corpo que luta, o corpo que salta, não do abismo, não do mundo, mas para o mundo. Na montagem de Pele Tecido, texto e espaço têm uma intensa relação com os corpos que se apresentam. A luta do corpo em se libertar do tecido é simbólica, é capaz de sintetizar a força da poesia de Ericson Pires, uma poesia que tensiona as amarras. O jogo do poeta, nesse caso, é viver. Existir e se afetar pela vida, na mesma intensidade. Em determinado momento, uma canção de liberdade ecoa: “É um novo amanhecer, é um novo dia, é uma nova vida para mim. E eu me sinto bem”. Sentir é essencial, nesse caso. A proposta da encenação é mexer com todos os sentidos possíveis e, para tal, lança-se mão de uma gama de ferramentas tecnológicas: vídeos que compõem o grande texto, que trabalham junto ao corpo; cenário e iluminação que acompanham as variações e conflitos das experiências propostas. Quando libertos do tecido, os corpos se experimentam uns nos outros, no espaço, com bastante intensidade.

O tipo de proposição e a fluidez do texto dão a impressão de que toda a cena é uma grande performance, no sentido de que os corpos parecem estar experimentando sem regras. Mesmo nos momentos em que o texto é falado ou há inserção de música, não se sente uma marcação do tempo na cena tão fortemente. Penso que Pele Tecido apresenta uma investigação das possibilidades cênicas, ao explorar não só um texto já escrito e escolhido, mas reescrevê-lo a partir das performances que vão acontecendo ao desenvolvê-lo. Possibilitando, assim, uma construção performática, na qual os corpos externam suas memórias, seus desejos e as relações com os elementos em cena, com as ideias criadas e recriadas a cada momento.

 
DOCUMENTÁRIO CURTA METRAGEM PELE TECIDO
Pele Tecido - Curta metragem, documentário (10’42’’)
PARA MAIS INFORMAÇÕES, CLIQUE AQUI

Documentário sobre o processo de criação da experiência cênica performativa Pele Tecido, a partir de poemas do livro homônimo de Ericson Pires (1971 – 2012). A encenação foi realizada em 2016, pelo projeto Mirateatro! Espaço de estudos e criação cênica, com estudantes de Artes Visuais e de História da Arte, do Instituto de Artes da UERJ. Viajando junto com o Tecelão, numa travessia em busca de si e do outro, o coletivo construiu uma cena entrelaçada de palavras, sons, corpos, imagens, afetos e cores.

Clique na imagem abaixo para acessar o vídeo através do canal do YouTube do Mirateatro. Quer saber mais sobre o documenátrio? Clique aqui.

Capa Catálogo Pele Tecido 2.jpg
 
VIDEOARTE COM O POEMA DE PELE TECIDO
Poema Todo

Videoarte produzida para exibição durante a experiência cênica Pele Tecido. Autor: Ericson Pires Narração: Nanci de Freitas Edição: Pedro Henrique Borges

Clique na imagem abaixo para acessar o vídeo através do canal do YouTube do Mirateatro. Quer saber mais sobre a videoarte? Clique aqui.

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